O Fantástico Sr. Raposo

Ontem, mais um vez comecei aproveitando o dia na Mostra Internacional de Cinema um pouco depois do planejado. Acabei mudando os meus planos há alguns dias, mas como não há mais a troca de ingressos – apenas no caso da própria Mostra mudar os horários -, escolhi arriscar e retirar novos ingressos no dia, na sala do cinema.

Cheguei para a sessão de O Fantástico Sr Raposo bem em cima da hora, achando que a sala estaria lotada no HSBC Belas Artes. Para a minha surpresa, não só não havia fila para a compra de ingressos, como havia ingressos e ainda consegui escolher, bem onde sentar. Está certo que eu gosto de ficar perto, mas de qualquer forma havia lugar de sobra no restante da sala.

O filme conta a história de uma família de raposas, cujo pai, o Sr. Raposo com a voz de George Clooney, quer mudar de vida, sentir-se menos pobre, e por isso decide mudar. E como mudar não é o bastante, cria um plano brilhante, à primeira vista, para realizar seus desejos. As coisas complicam e ele acaba causando problemas para a família e vizinhos.

O novo filme de Wes Anderson foge um pouco dos seus trabalhos anteriores. Seus personagens continuam fugindo do padrão e surpreendendo, mas O Fantástico Sr. Raposo é uma animação. Não só isso, uma animação baseada no livro de Roald Dahl. Usando stop-motion para adaptar o livro, mais para o gosto dos adultos, o resultado visual da animação é muito bom e divertido. Lembra muito as animações antigas européias, principalmente a excelente obra de Jiří Trnka, só que mais aprimorado na questão da animação, graças às novas técnicas. O som do filme, captado em ambientes parecidos aos das personagens, é outro ponto positivo.

Como filme, a história consegue manter o bom humor, com algumas surpresas, para quem não leu o livro. Há boas falas, que ganham força e vida com a voz dos atores. Gostei muito do resultado visual do filme, com um incrível grau de detalhes, e das personagens, todas cheias de personalidade, do som, do estilo da animação. Só esperava mais da história, culpa minha provavelmente. Recomendo filme com certeza, mas por favor tente vê-lo legendado, ou o filme perderá metade do seu charme.

Sussuros ao Vento

Segui o dia com uma sessão mais vazia, com o filme iraquiano Sussuros ao vento. Dirigido por Shahram Alidi, o filme conta a história de Mam Baldar , que registra em seu gravador mensagens das pessoas que vivem nas aldeias das montanhas do Curdistão iraquiano, e leva para os outros. Um filme poético, sobre a força do registro oral, das tradições e da determinação de um povo, que mesmo perseguido e expulso de suas terras, não perde a fé de continuar em frente.

O filme é muito bonito, com uma fotografia encantadora, resultante das paisagens e enquadramentos. Com um ritmo mais lento, como seus vizinhos iranianos, a história se desenvolve sem pressa, expondo os acontecimentos, as pessoas, o lugar. É não só um registro dessas vozes, que parecem sussurrar por onde Baldar passa, é um registro visual desse povo, de onde vivem, e das coisas terríveis que vem acontecendo com eles. O som é um show à parte, por isso veja em uma sala com um bom sistema de som, já que esse é o principal elemento do filme.

Mother (Madeo)

A sessão seguinte merecia uma sala mais cheia mesmo. O coreano Mother, dirigido por Bong Joon-Ho surpreende, fugindo do convencional e do previsível, como os filmes coreanos em geral que chegam por aqui. O filme fala da relação da mãe solteira Hye-ja, extremamente apegada a seu filho Do-joon, uma criatura ingênua e um tanto estúpida. Quando seu filho é preso por um crime que não cometeu, Hye-ja sai em busca do verdadeiro criminoso.

O filme passeia por momentos cômicos, explorando a ingenuidade do rapaz, e tensão, quando a mãe parte em busca de respostas que a levem ao real culpado. O suspense se mantém até o final do filme, graças ao roteiro sólido e a construção de suas personagens. O método de busca dessa mãe, e os caminhos trilhados por ela, revelam aos poucos como os dois são mais parecidos do que pensávamos. Revelam também toda uma trama por trás da morte da moça, e pouco a pouco a inocência das personagens vai sumindo.

O filme tem ritmo, ótima fotografia, precisão dos enquadramentos, trama interessante e força na atuação da personagem da mãe. Ela nos convence de sua obsessão, e de seu amor incondicional pelo filho. Uma mãe de verdade, pronta para tudo para provar a inocência do filho, mesmo que sua sanidade seja questionada. Foge do habitual também o final, resultando em um filme brilhante.

Natimorto

À noite o Frei Caneca sim estava com cara de Mostra. Tudo lotado. Ia trocar de sessão para ver Natimorto outro dia, mas a outra sessão estava lotada. Filas pra todos os lados. E se você planeja assistir filmes por lá à noite nos próximos dias, compre seus ingressos bem mais cedo.

Natimorto é um filme autoral quase em seu sentido puro. O autoral aqui vem através da direção fortemente marcada, sim, mas vem principalmente do autor do livro homônimo no qual é baseado: Lourenço Mutarelli. Há algum tempo ele vem namorando com o cinema, através da adaptação de seus livros e atuações. Essa relação começou com um grande filme, o Cheiro do Ralo , e goste ou não, tem estilo. Mutarelli fez uma ponta no filme, e de lá para cá já atuou em mais 4. Dos cinco, 3 foram adaptações de seus livros ou personagens.

As personagens de Mutarelli são homens claramente perturbados, tímidos, que pensam demais, falam demais e fumam demais. Demais não traduz o quanto as personagens fumam em Natimorto. A fumaça e o cigarro são tão presentes no filme, que chegam a enjoar o espectador.

O filme transpira cigarro e Mutarelli através de sua presença na tela: é um filme de uma obra dele, com uma personagem que é quase a síntese de suas personagens, com ele mesmo fazendo esse papel. E se não fosse o diretor, seria um filme dele. A passagem do livro para a tela com tanta fidelidade provavelmente é resultado de uma ótima interação diretor-ator/autor.

Natimorto apresenta um caça-talentos que realiza o fracasso de seu casamento depois de trazer para São Paulo uma jovem cantora lírica.  Assustado com o mundo e a forma com a qual as pessoas lidam com ele, tratando o como se não existisse, ele decide viver os próximos anos de sua vida trancado em um quarto de hotel, isolado do realidade. Seu único contato com o mundo passa a ser a cantora, que vai vem depois de encontros com o maestro, e os maços de cigarro que pede para entregar de manhã. É nos maços de cigarro que começa sua loucura, associando as imagens da campanha anti-fumo com as cartas do tarô, e tentando prever como será o seu dia através delas.

O espectador aos poucos vai se sentindo claustrofóbico com tensão que se passa apenas no quarto de hotel. O que vê é apenas um quarto de hotel com um homem obcecado por imagens, tentando prever o futuro através delas obcecadamente. A vida da personagem passa a girar em torno do cigarro: o cigarro que chega todos os dias, o cigarro que não pára de acender, o cigarro espalhado pelo chão e a constante fumaça que o entorpece.

O filme é forte, mas algo para mim não funcionou. Não compro a idéia de que as cartas do tarô podem prever o futuro, e cada vez que a personagem citava isso, a minha reação era o riso. Há algo também na atuação durante os diálogos, que parecem ser recitados, como se os atores estivessem no teatro. As cenas que mais gostei foram aquelas em que nada é dito, e a câmera conta a imagem por si mesma.

Julie & Julia

Terminei a noite com aquilo que costumo chamar de filme de menina, e que não faz parte dos meus favoritos. Fui ver o novo filme de Nora Ephron, Julie & Julia, por dois motivos principais: comida e Meryl Streep. Tinha ouvido ótimos comentários sobre a sua atuação, e estavam certos, ela mais uma vez atua como Meryl Streep atua, de forma brilhante.

O filme faz um paralelo entre Julia Child, autora de um dos grandes clássicos já publicados sobre culinária nos Estados Unidos Mastering the Art of French Cooking, e Julie Powell que anos atrás criou um blog publicando sua experiência de fazer todas as receitas do livro de Julia em um ano. Julie & Julia apresenta a vida dessas duas mulheres que descobriram as suas paixões e um novo rumo para suas vidas através da culinária.

O filme é bonitinho conforme o esperado: há momentos românticos, de frustrações, conversas de mulher, bons diálogos, humor e drama. A arte do filme é um capítulo a parte: a recriação da França do final dos anos 40, figurino, e cenários, incluindo utensílios de cozinha, com uma linda fotografia que a ressalta esses elementos, dão o charme ao filme. É tudo muito agradável de se ver.

A comida, que motiva essas duas mulheres que vivem em épocas diferentes, também me motivou a ir. Não desaponta, embora eu esperasse mais cenas, e mais detalhes disso. E uma boa parte dos diálogos, das piadas e do visual vai funciona muito melhor com aqueles que apreciam os prazeres da mesa.

E claro, não posso deixar de falar de Meryl Streep que está perfeita no papel de de Julia Child. É todo um trabalho para ter a voz, os gestos, os tiques e a altura de Julia. Você a vê na tela através da atriz. E mesmo que você não seja fã de culinária como eu, ela vale o ingresso do filme, se não agora, quando estrear nos cinemas.

Seguem abaixo algumas dicas e apostas sobre o que assistir hoje na Mostra. Para amanhã eu já sugiro a Cinemateca Brasileira e a abertura da instalação de Ingmar Bergman. Bons filmes.

Dicas para o terceiro dia da Mostra

35 Doses de Rum (35 Shots of Rum), de Claire Denis

500 Dias Com Ela (500 Days of Summer), de Marc Webb

A Fita Branca (Das Weisse Band), de Michael Haneke

A Todo Volume (It Might Get Loud),de Davis Guggenheim

Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos), de Pedro Almodóvar

Adam (Adam), de Max Meyer

Alexandre, O Último (Alexander The Last), de Joe Swanberg

À Procura de Elly (Darbareye Elly), de Asghar Farhadi

À Procura de Eric (Looking For Eric), de Ken Loach

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles), de Alain Resnais

Metropia (Metropia), de Tarik Saleh

Mother (Madeo), de Bong Joon-Ho

O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox), de Wes Anderson

O Inferno de Clouzot (L’Enfer D’Henri-Georges Clouzot), de Serge Bromberg, Ruxandra Medrea

O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (The Imaginarium Of Doctor Parnassus), de Terry Gilliam

Tokyo! (Tokyo!), de Michel Gondry, Leos Carax, Bong Joon-Ho

Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans), de Werner Herzog

Uma resposta a “2º dia da 33ª Mostra e sugestões para o 3º”

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