
Com a efervescente Paris dos loucos anos 1920 como pano de fundo principal, “Bolero: A Melodia Eterna” (Bolero) tenta desvendar o mistério por trás da composição da peça mais conhecida do compositor, pianista e regente Maurice Ravel. O seu “Bolero” foi encomendado para um balé por Ida Rubinstein, que apenas estimou a duração e queria algo carnal, erótico e sabia que existia isso na música dele. Ravel entregou uma melodia que dura 1 minuto e se repete 17 vezes, que não é apenas um exercício musical, mas uma hipnose em crescendo onde os instrumentos vão se somando em intensidade para uma apoteose quase orgástica.
Para quase qualquer música eu perguntaria para alguém se conhece, no caso do “Bolero” de Ravel a pergunta é: quando foi a primeira vez que ouviu? Essa composição é um hit tão grande, e não apenas no universo da música clássica, que dizem que ela toca eternamente porque é executada a cada 15 minutos em algum lugar do planeta, seja a original que dura mais de 15 minutos, ou alguma de suas variações. A abertura do filme já nos brinda com uma riqueza sonora de algumas das centenas de adaptações dessa composição magistral que teve sua 1ª execução pública com o balé em 1928.

Não por acaso foi a escolha um tanto arriscada da veterana diretora e roteirista franco-luxemburguesa Anne Fontaine para o seu filme onde a música é a personagem. Com diversos prêmios por seus filmes ao longo de 30 anos de carreira, Fontaine que chega ao seu 20º longa passeando vários gêneros. Ela já nos presentou com filmes como o tocante “coming-of-age” queer “Marvin”, o poderoso drama histórico “Os Inocentes” e, uma das minhas adaptações preferidas das HQs, a deliciosa comédia “Gemma Bovary”. Em “Bolero” a diretora adapta para o cinema a biografia de Marcel Marnat sobre um homens mais geniais da história da música, Maurice Ravel. Mas ela mesma tem um passado musical , foi violoncelista.
Ravel que foi um homem muito reservado e sua vida pessoal, amorosa e sexual continua sendo um enigma. O roteiro trabalha com algumas das especulações conhecidas, mas é a preciosa da atuação de Raphaël Personnaz como Ravel que mais nos aproxima do homem que terá sido pelo que dizem os relatos de amigos e artigos. desse homem bonito, pequeno e magro, sempre muito elegante, quase um dandy, meticuloso no seu vestir, em suas ações e composições. Sabe-se que era um homem bonito, pequeno e magro, sempre muito elegante, quase um dandy, meticuloso no seu vestir, em suas ações e composições.
Ravel tinha alguns poucos amigos, mas tinha um círculo mais próximo de amigas, como as pianistas Margueritte Long, interpretada pela sempre ótima Emmanuelle Devos, e Misia Sert (Doria Tillier) que foi amiga, confidente, desde a época em que foram alunos de Gabriel Fauré. Tillier consegue nos transmitir um charme e a inteligência que talvez tenha encantado Ravel por toda sua vida.

Completando a tríade de mulheres fortes do filme temos uma Ida Rubinstein “quase barroca” nas palavras da diretora, interpretada pela marcante Jeanne Balibar. Aqui, assim como em “Barbara” de Mathieu Amalric, a personagem real dá margem para um rebuscamento divertido na atuação de Balibar: a atriz e dançarina ucraniana vinha de uma família abastada, passou pelos Balés Russos de Serguei Diaghilev, pelo cinema em atuações carregadas de exotismo.
Mesmo atravessando várias épocas da vida do compositor o filme passa longe do estilo biografia enciclopédica. A narrativa flutua sem didatismos entre os momentos marcantes que influenciaram a formação do artista e processo longo e estressante para a criação do seu bolero. E o melhor: a produção teve a grande oportunidade de poder gravar na casa onde Ravel morou e onde inclusive o mobiliário foi conservado.
A composição visual e sonora que vai aos poucos crescendo e nos envolvendo, assim como o Bolero, e mostra a influência de seu pai engenheiro e inventor suíço com as máquinas, os ritmos, o controle do movimento, e a mãe basca que cantava para ele e trouxe toda uma carga cultural. Um belo exemplo de como Fontaine constrói visualmente a sonoridade da obra é uma das primeiras cenas quando Ravel leva Rubinstein para a fábrica do pai para falar que a música está quase pronta: conseguimos quase sentir a porosidade desse homem que captava todos os sons ao redor como música.

Os mais impacientes talvez dirão que o filme é longo, mas há razões para a duração e o ritmo: o tempo que levamos até a 1ª Bolero, essa personagem que vai crescendo, serve para, claro criar uma tensão e transmitir todo o stress que o bloqueio criativo causou em Ravel, e também é um modo de nos apresentar o trabalho de escritura virtuosa, que leva tempo, que captura as influências do mundo ao redor, que as transforma.
Ravel transitou por vários estilos musicais, sonoridades, um ecletismo imenso, não se repetindo, se interessando por tudo, fez música para diversos públicos, ainda assim foi chamado de “técnico mas incapaz de produzir emoção” por seu virtuosismo. Mas no fundo era o contrário: a música era a sua paixão, a paixão que ele não expressava na vida real afetiva.
O grande trunfo do filme está em mostrar toda essa paixão da música nos nos detalhes. Os recortes de olhares, da movimentação das mãos, das luvas, a delicadeza com que toca o piano, até os momentos em que Ravel está criando a música, tudo está repleto de sensualidade. Mas nada disso funcionaria sem a riqueza de emoções contidas nesses pequenos gestos, olhares graças a atuação intensa de Personnaz, onde todo o corpo se expressa com sutileza e precisão.

Apesar de achar o filme um tanto clássico em sua linguagem para homenagear uma obra ousada, e desejar um pouco mais intensidade da narrativa, assim como a música, achei “Bolero: A Melodia Eterna” uma bela homenagem ao imenso criador, Maurice Ravel, e a criatura, o “Bolero”. É também uma biografia sobre os sons da vida, sobre essa música que se transforma em uma metáfora do mundo mecânico por sua repetição, uma ode à modernidade. Vejam com olhos e ouvidos atentos e se não conhecem procurem sobre outras obras dele: será uma descoberta enriquecedora.






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